{"id":1386,"date":"2017-02-15T13:40:18","date_gmt":"2017-02-15T13:40:18","guid":{"rendered":"http:\/\/rafaelarigoni.com\/?p=1386"},"modified":"2020-07-05T21:42:49","modified_gmt":"2020-07-05T21:42:49","slug":"e-nasce-uma-pesquisadora-sobre-drogas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.rafaelarigoni.com\/pt-br\/2017\/02\/15\/e-nasce-uma-pesquisadora-sobre-drogas\/","title":{"rendered":"E nasce uma pesquisadora sobre drogas&#8230;"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Voc\u00ea j\u00e1 se perguntou por que escolheu o trabalho que faz? O que te tira da cama para trabalhar por mais de 8 horas por dia, num determinado assunto, talvez por muitos anos? Eu j\u00e1.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Quando a gente trabalha no campo das pol\u00edticas de drogas e redu\u00e7\u00e3o de danos, a gente geralmente carrega um desejo de tornar o mundo um lugar melhor. Acima de tudo, um lugar melhor para pessoas que usam drogas e aquelas que est\u00e3o pr\u00f3ximas a elas. Isso n\u00e3o foi diferente no meu caso.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando terminei minha gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia em Porto Alegre, Brasil, em 2001, comecei a trabalhar para a Organiza\u00e7\u00e3o N\u00e3o Governamental Movimento Metropolitano de Redu\u00e7\u00e3o de Danos. Faz\u00edamos educa\u00e7\u00e3o permanente juntamente com profissionais de sa\u00fade, buscando com eles formas de abordar os usu\u00e1rios de drogas que eles encontravam diariamente. Naquela \u00e9poca conheci a \u201c<a href=\"https:\/\/www.hri.global\/files\/2010\/06\/01\/Briefing_what_is_HR_Portuguese.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">redu\u00e7\u00e3o de danos<\/a>\u201d pela primeira vez: uma abordagem que n\u00e3o exige que as pessoas que usam drogas se tornem abstinentes ou parem de usar drogas para iniciar o cuidado de si. E esta proposta fez muito sentido pra mim.<\/p>\n\n\n\n<p>A redu\u00e7\u00e3o de danos veio como uma alternativa \u00e0 abordagem de abstin\u00eancia. Esta \u00faltima, predominante nas pr\u00e1ticas de cuidados em sa\u00fade naquela \u00e9poca, mas j\u00e1 criticada por ser excludente e manter longe dos servi\u00e7os todas aquelas pessoas que n\u00e3o queriam ou n\u00e3o podiam parar de usar drogas. No ano de 2003, a pol\u00edtica nacional sobre drogas mudou para apoiar oficialmente a redu\u00e7\u00e3o de danos pela primeira vez. Isso levou o governo brasileiro a investir na capacita\u00e7\u00e3o de profissionais de sa\u00fade para lidar com a nova abordagem. E l\u00e1 estava eu.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas reuni\u00f5es e atividades com os trabalhadores, eu podia sentir a dificuldade que muitos tinham em aceitar e\/ou colocar em pr\u00e1tica a redu\u00e7\u00e3o de danos. Eram frequentes os desentendimentos sobre o que fazer, os mal-entendidos, e o comportamento prejudicial para com os usu\u00e1rios e a abordagem de redu\u00e7\u00e3o de danos. Quando estas quest\u00f5es eram superadas, outras restri\u00e7\u00f5es estruturais surgiam, como a falta de recursos financeiros, servi\u00e7os, e apoio pol\u00edtico. Isso tudo dificultava muito a ado\u00e7\u00e3o da redu\u00e7\u00e3o de danos como objetivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns anos mais tarde, quando trabalhei como psic\u00f3loga em um Capsad, experienciei ter colegas que se negavam a adotar redu\u00e7\u00e3o de danos, embora a proposta fosse parte das regras e regulamentos que orientavam nosso trabalho. Enquanto eu promovia estrat\u00e9gias para reduzir os danos nos grupos e nas consultas individuais com pessoas que usam drogas, alguns de meus colegas refor\u00e7avam a necessidade de abstin\u00eancia completa em suas atividades. Muitas vezes, est\u00e1vamos atendendo as mesmas pessoas. Com cada profissional comunicando aos usu\u00e1rios um objetivo diferente, todos n\u00f3s experiment\u00e1vamos dificuldades em desenvolver coer\u00eancia em nosso trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Movida por estas quest\u00f5es, elaborei um projeto de pesquisa de mestrado para investigar o trabalho dos redutores de danos abordando pessoas que usam drogas em Porto Alegre e regi\u00e3o metropolitana. A Capes me ofereceu uma bolsa por 2 anos.&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/7797\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A pesquisa mestrado<\/a>&nbsp;confirmou que os redutores de danos encontravam dificuldades em colaborar com trabalhadores em assist\u00eancia social e sa\u00fade cujas pr\u00e1ticas se orientavam \u00e0 abstin\u00eancia como \u00fanica via. Os redutores tamb\u00e9m percebiam as atividades repressivas dos policiais como dificultando seu trabalho \u2013 notadamente pelo deslocamento constante dos usu\u00e1rios, e pela apreens\u00e3o de equipamentos para o uso de drogas \u2013 como seringas que eram distribu\u00eddas pelos programas de redu\u00e7\u00e3o de danos para evitar o contagio e transmiss\u00e3o do HIV. Uma coisa ficou clara nesta pesquisa: mesmo que a pol\u00edtica oficial fosse certamente um importante dispositivo para organizar as atividades dos profissionais da \u00e1rea, sozinha, a pol\u00edtica no papel n\u00e3o se mostrava suficiente para que os trabalhadores modificassem suas pr\u00e1ticas para apoiar a redu\u00e7\u00e3o de danos. O que faltava ent\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Todas essas quest\u00f5es se juntaram na constru\u00e7\u00e3o de uma proposta de pesquisa de doutorado. Como \u00e9 que trabalhadores escolhem dentre as diferentes abordagens sobre como lidar com o uso de drogas? Como eles decidem se e com quem querem colaborar? E como a pol\u00edtica nacional oficial pode, \u00e0s vezes, ser totalmente ignorada na pr\u00e1tica?<\/p>\n\n\n\n<p>Por sorte, consegui uma vaga e uma bolsa de estudos do governo holand\u00eas \u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.nesobrazil.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">NUFFIC&nbsp;<\/a>\u2013 para estudar essas quest\u00f5es na Holanda, pa\u00eds em que a abordagem de redu\u00e7\u00e3o de danos nasceu. Nesta \u00e9poca, em 2008, a estrat\u00e9gia holandesa de redu\u00e7\u00e3o de danos era vista como um exemplo a ser seguido por todos que apoiavam a redu\u00e7\u00e3o de danos, o pote de ouro no final do arco-\u00edris, onde todos queriam chegar. Quando comparada \u00e0 pol\u00edtica nacional holandesa, a brasileira parecia estar muito atrasada. Quais li\u00e7\u00f5es n\u00f3s brasileiros poder\u00edamos aprender dos holandeses? E como, exatamente, esta pol\u00edtica de ouro da redu\u00e7\u00e3o de danos funcionava na pr\u00e1tica na Holanda?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu esperava ver grandes diferen\u00e7as em termos de como os trabalhadores se comportavam, pensavam e decidiam sobre o que fazer com as pessoas que usam drogas em seu trabalho cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo da&nbsp;<a href=\"http:\/\/repub.eur.nl\/pub\/78062\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">pesquisa<\/a>, no entanto, as cores do arco-\u00edris holand\u00eas mostraram algumas nuances diferentes, e o pote dourado se mostrou menos brilhoso do que o esperado, ainda que muito valioso. Muitas outras quest\u00f5es foram despertadas, e comparar id\u00e9ias e experi\u00eancias de trabalhadores em sa\u00fade, assist\u00eancia e seguran\u00e7a nos dois lados do oceano Atl\u00e2ntico foi definitivamente uma das tarefas mais interessantes e desafiadoras que tive na minha carreira acad\u00eamica. Atrav\u00e9s das experi\u00eancias dos trabalhadores que participaram desta pesquisa, revisitei a dureza e a sensibilidade da negocia\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de objetivos, significados e decis\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>No final de 2015, comecei um trabalho de consultoria que me permitiu explorar ainda mais a variedade de atores e experi\u00eancias relacionadas a pol\u00edticas sobre drogas. Trabalhando para a&nbsp;<a href=\"http:\/\/english.mainline.nl\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Funda\u00e7\u00e3o Mainline<\/a>, tive a chance de conhecer dos altos funcion\u00e1rios da&nbsp;<a href=\"https:\/\/nacoesunidas.org\/agencia\/unodc\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">UNODC&nbsp;<\/a>e \u00f3rg\u00e3os governamentais \u00e0s pessoas que usam uma variedade de drogas e habitam becos estreitos e favelas em pa\u00edses como a&nbsp;<a href=\"http:\/\/english.mainline.nl\/posts\/show\/7699\/indonesia\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Indon\u00e9sia<\/a>&nbsp;e a&nbsp;<a href=\"http:\/\/english.mainline.nl\/posts\/show\/7698\/south-africa\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u00c1frica do Sul<\/a>. O compartilhamento de experi\u00eancias e a tentativa de compreender o desenvolvimento das pol\u00edticas em diversos contextos ampliou meu entendimento da elabora\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas nacionais e internacionais sobre drogas.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, em 2017, estou adentrando mais profundamente o contexto hist\u00f3rico dos diferentes discursos e pol\u00edticas sobre drogas. Atrav\u00e9s de uma pesquisa de p\u00f3s-doutorado na Universidade de Utrecht, vou analisar como pa\u00edses da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia tem interpretando as posi\u00e7\u00f5es holandesas em torno de drogas. Teriam eles influenciado a dire\u00e7\u00e3o tomada pela Holanda?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>Minha trajet\u00f3ria como pesquisadora sobre drogas se desenvolveu a partir da base. <\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>Comecei como redutora de danos, passei a estudar como as pessoas que usa(va)m drogas aconselhavam outras a reduzir seus danos, subi um n\u00edvel na escada das formula\u00e7\u00f5es em pol\u00edticas para investigar como trabalhadores sociais, em sa\u00fade e em seguran\u00e7a abordavam pessoas que usam drogas, e hoje investigo a formula\u00e7\u00e3o da pol\u00edticas sobre drogas nos n\u00edveis pol\u00edticos mais altos. Literalmente das ruas para o papel e as salas de reuni\u00f5es. <\/p>\n\n\n\n<p>Percebi que, embora permane\u00e7a no mesmo campo, tenho visto o mesmo a partir de perspectivas diversas. Cada disciplina &#8211; hist\u00f3ria, psicologia, pol\u00edticas p\u00fablicas, estudos em desenvolvimento &#8211; tem contribui\u00e7\u00f5es \u00fanicas para a compreens\u00e3o do uso e do tr\u00e1fico de drogas. A novidade de descobrir, todos os dias, um pouco mais sobre cada lado deste t\u00f3pico \u00e9 o que me leva a sentar em frente do computador, dos livros e das pessoas envolvidas com (o estudo d)as drogas. A cada passo, adquiro uma compreens\u00e3o mais hol\u00edstica sobre drogas. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>E voc\u00ea, como voc\u00ea come\u00e7ou sua jornada em dire\u00e7\u00e3o ao trabalho que voc\u00ea faz e o que faz voc\u00ea continuar?<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p> <\/p>\n\n<div class=\"twitter-share\"><a href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?via=RigoniRafaela\" class=\"twitter-share-button\">Tweet<\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea j\u00e1 se perguntou por que escolheu o trabalho que faz? 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